Lisboa, séc. XXI
Terminada a época das castanhas assadas e estando a dos gelados ainda distante, há quem se dedique aos ofícios tradicionais e é possível depararmo-nos com um amola-tesouras. Sorte a nossa, pela contemplação do anacronismo; azar dele, porque remetido a um biscate tão pouco compensador.
Mas verificando bem, este amola-tesouras é muito diferente dos antigos. Em primeiro lugar pela oficina ambulante, que deixou de ser o velho mas digno carrinho de madeira e foi substituído pela bicicleta. A estrutura metálica assinalada com c) permite pô-la em pé, sendo a pedra de afiar (b) movida pela roda traseira, esta pedalada...com a mão.
A carismática flauta (a) há muito deixou de ser o instrumento metálico de sonoridade inconfundível, substituída que foi pelo de plástico. A própria melodia não passa já de uma caricatura, uma evocação normalizada dos virtuosos que introduziam subtis variações pessoais como marca pessoal e distintiva.
O próprio ofício quase abdicou das tesouras e das facas, especializando-se preferencialmente na reparação de chapéus-de-chuva. Deve vir daí o mito zombeteiro do amola-tesouras como anunciador de chuva.
Também o verbo amolar resolveu desvernacular-se, abdicando da sua raiz que vinha de mó, adoptando o significado brasileiro de molestar. Hoje afia-se, principalmente a língua, mas em série.

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