segunda-feira, dezembro 27, 2004

Alexandre o Grande.

Fazer um filme deste tipo, supostamente biográfico, ainda por cima dedicado a uma figura ímpar como foi Alexandre, é muito arriscado e, na maior parte dos casos, afunda-se completamente. É o caso deste Alexandre, o grande.

É notório que Oliver Stone recusou-se a contribuir para prolongar o mito, oferecendo-nos um sujeito impassível, inseguro e problemático, que procura a aprovação do pai e não desiludir a mãe, que faz sexo à bruta com a mulher e é homossexual, em vez de um rei guerreiro, ambicioso, corajoso, culto, arrogante, o génio militar que venceu todas as batalhas e que levou os seus soldados aos limites do mundo conhecido.

Com o efeito, Stone, não quer contar a história mas apenas mostrar aspectos da personalidade insegura, paranóica e absolutamente nada inspiradora de confiança da personagem "Alexandre", esquecendo as suas proezas heróicas e bem mais cativantes, recorrendo até à exaustão ao relato da sua pretensa homossexualidade.

O actor escolhido para o efeito (Colin Farrell), com o seu ar de surfista, nem o papel de homossexual consegue desempenhar, tal como é pretendido, quanto mais irradiar o carisma necessário para interpretar uma personagem forte.

O argumento dá enormes "saltos" na história (da adolescência passamos automaticamente para Guagamelos, omitindo Granicos, o nó Górdio, Issus, Tiro e o Egipto, o incêndio de Persépolis, recuando, mais tarde, para o assassinato de seu pai, Filipe) e deturpa vilmente o rigor histórico (a morte de Cleitos não se passou na Índia, o momento do regresso não foi efectuado com Alexandre ferido, este não foi ferido em campo aberto mas numa fortaleza).

Esse inacreditável argumento, que transforma o filme numa história desconjuntada e episódica, sem nenhuma unidade ou objectivo dramático, passa completamente ao lado dos anos que o fizeram crescer e transformar no líder que viria a conquistar a maior parte do mundo conhecido, os anos que contribuíram de forma decisiva para moldar o seu carácter, que mostraram as qualidade que inspiraram a lealdade dos seus homens, sujeitos a provações extremas, nem informa geograficamente as conquistas de Alexandre.

Sejamos claros. Oliver Stone queria abordar mais a homossexualidade (ou bissexualidade) de Alexandre do que retratar o mito. Resultado: temos uma personalidade incompleta, que mostra muito pouco de um homem que, quanto mais não seja, foi da Macedónia aos Himalaias. As duas batalhas (nas várias possíveis ao longo de 12 anos), parecem estar ali por engano . A primeira parte do filme omite toda a campanha para dedicar-se aos problemas familiares e à suposta homossexualidade de Alexandre (referida até á exaustão), a segunda parte, o filme torna-se confuso, com factos verdadeiros colocados nas alturas erradas. Não era necessário conceber 3 horas de filme para tal.


P.S. Em determinada altura, vê-se Aristóteles debitando filosofia, no meio de uma série de ruínas. Mas não era suposto estar tudo de pé naquela altura?

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