quarta-feira, maio 28, 2008

O PRINCÍPIO DO CAOS

"Ah, as polémicas literárias... O grupo Leya, que integra uma resma de editoras, recusou participar na Feira do Livro de Lisboa se não pudesse instalar-se num barracão mais vistoso que os barracões tradicionais. A Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) recusou permitir excepções. A autarquia lisboeta ameaçou a APEL por causa da Leya. A APEL acusou a autarquia de servir a Leya. A Feira esteve uns dias em risco. A autarquia insistiu. A Feira foi adiada. A Leya não cedeu. A APEL cedeu. A Feira começa agora.

Mas qual Feira, Deus meu? A "festa democrática" que Saramago já recorda com saudade ou a manifestação da "diferença de classes" que Saramago antecipa? De acordo com o avisado romancista de Lanzarote, o barracão "imponente" da Leya "abre as portas a uma espécie de caos".

Assino por baixo e reforço: caos é favor. Exibir livros em qualquer suporte distinto dos vulgares caixotes prefabricados constitui praticamente um convite ao Armagedão. Na esconsa cabecinha do cidadão médio, a diversidade e a possibilidade de escolha só podem ser fonte de escusada desorientação. E milhares de pessoas atarantadas no parque Eduardo VII, confusas pela luta de classes e indecisas entre os caixotes e a "imponência", não auguram um espectáculo bonito.

É, naturalmente, o espectáculo que o capitalismo oferece. E que mais uma vez saiu vencedor. Pior para a democracia da Feira, a qual, é preciso dizê-lo, nunca foi a perfeição que Saramago insinua. Que eu me lembre, a dita sempre ostentou uma perigosa tendência para fomentar distinções. Nos próprios livros, por exemplo: com grande inconsciência, a par das edições do Avante! e da Caminho vendiam-se produtos que até duvidavam da superioridade das sociedades socialistas e igualitárias. Ou seja, o caos já espreitava. Hoje mostrou as garras e desceu à rua. Ou subiu o Eduardo VII.
"

Alberto Gonçalves

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