sábado, maio 20, 2006

Greve à sensatez.

1/ "Entre nós, a história é outra. Desde logo, porque, como todos os mapas sugerem, Portugal pertence à civilizada Europa. Aqui, os políticos que se imaginam injustiçados pelos media não subvertem os seus hábitos alimentares: publicam livros. Na semana passada, o prof. Manuel Maria Carrilho publicou, justamente, uma espécie de livro. Estranho é que, ainda que ‘Sob o Signo da Verdade’ seja mais pindérico do que 30 greves de fome, quase ninguém se riu daquilo. A RTP entrevistou o autor no dia do lançamento. Na SIC Notícias, diversos debates abordaram o assunto. E não vale a pena contar a extraordinária quantidade de crónicas, escritas e faladas, dedicadas à ‘obra’ (esta, desculpem lá, é apenas mais uma).

Mas pior do que a atenção dispensada é o tom delirante da dita. Aparentemente, não falta quem descubra no livrinho incontáveis virtudes. Aparentemente, o livrinho “convida” a reflexões acerca do papel do jornalismo, “interpela” as relações do jornalismo com a política e, no entender de um idiota deliciado, reclama acrescido controlo sobre a “Comunicação Social”.

Dai-nos paciência. Eu li a coisa e a coisa resume- -se ao choro prolongado de um sujeito que, para sua desgraça, não compreende e nunca compreenderá o Mundo. O prof. Carrilho queixa-se de maus tratos, o prof. Carrilho cita elogios de terceiros ao prof. Carrilho (juro!), o prof. Carrilho finge reconhecer algumas culpas e aproveita para se queixar novamente. E é isto: um monumento à completa inconsciência do ridículo, o qual começa na capa, prossegue no título e vibra com espalhafato em cada parágrafo.

De certo modo, é exacto que, conforme se diz por aí, ‘Sob o Signo da Verdade’ lança importantes pistas de discussão. Primeiro, podemos começar por discutir o drama do nosso Ensino Superior, para acolher docentes que escrevem, e mal, livros assim. Depois, com muito vagar, podemos discutir o estado mental de um País que leva o prof. Carrilho e as birras do prof. Carrilho a sério.

2/ "Ainda na semana passada, os moços do Bloco de Esquerda pediram um debate parlamentar de urgência, dizendo-se preocupados com a questão iraniana. À primeira vista, óptimo. Qualquer pessoa medianamente sã preocupa-se com o Irão. É uma ditadura teocrática. Nomeou um chimpanzé para a presidência. Quer destruir Israel. Trabalha no fabrico de armas nucleares. Depois, porém, irrompeu o contexto e, no contexto, as angústias dos moços do BE revelaram-se exactamente as inversas: o problema deles é que o regime totalitário do Irão sofra algum incómodo, coitadito. Mesmo a intransigente defesa do BE dos direitos dos homossexuais e das mulheres é relativa: no contexto dos regimes islâmicos, o BE transige sem inibições, e acha naturalíssimo que eles sejam condenados à morte e elas a uma vida de submissão e vergonha.
"

Alberto Gonçalves

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