sábado, maio 08, 2010

A ajuda à Grécia é apenas o começo

"Para grandes males, grandes remédios. A zona euro, após meses de procrastinação com custos elevados, avançou por fim com um gigantesco pacote de ajuda financeira à Grécia.

O facto de envolver o Fundo Monetário Internacional (FMI), a mando de Berlim, além de trazer recursos adicionais ajudou a melhorar programa. Mas será que este vai funcionar? Infelizmente, tenho sérias dúvidas sobre o seu êxito.

Em que consiste o programa, afinal? Em traços largos, consiste num pacote de 110 mil milhões de euros - que correspondem, grosso modo, a pouco mais de um terço da dívida grega -, 30 mil milhões dos quais assegurados pelo FMI (acima do que habitualmente é permitido) e os restantes pela zona euro. O suficiente para manter a Grécia fora do mercado, se necessário, durante mais de dois anos.

Atenas, em contrapartida, compromete-se a pôr em prática uma consolidação orçamental de 11% do PIB nos próximos três anos, a somar às medidas já em curso, a fim de reduzir o défice de 13,6% em 2009 para 3% em 2014. As medidas do governo do lado da despesa visam gerar poupanças na ordem de 5 ¼ por cento do PIB nos próximos três anos: as pensões e os salários vão ser reduzidos para, depois, serem congelados durante três anos, o pagamento de bónus vai ser suspenso e estima-se que as medidas fiscais possam gerar receitas na ordem dos 4% do PIB. As previsões para a dívida pública apontam, apesar de tudo, para uma forte subida, devendo atingir os 150% do PIB.

No que respeita a alguns aspectos de fundo, o programa tende a ser menos realista que o seu antecessor intra-europeu. Já ninguém se deixa iludir pela ideia de que, este ano, a economia iria sofrer apenas uma ligeira contracção, regressando depois a um crescimento estável. Aparentemente, o novo programa tem em consideração uma descida cumulativa no PIB de cerca de 8%, muito embora tais previsões sejam extremamente incertas. O antigo plano partia de um princípio semelhante, isto é, que a Grécia seria capaz de reduzir o défice orçamental para menos de 3% do PIB até final de 2012. A meta no novo plano é 2014.

Gostaria de realçar outros dois aspectos agora decididos. Primeiro, não há reestruturação da dívida. Segundo, o Banco Central Europeu vai suspender o limiar mínimo de notação de risco exigido para os activos controlados pelo Estado grego quando de operações de liquidez, assegurando assim algum apoio aos bancos gregos vulneráveis. Será que este programa é razoável, quer para a Grécia quer para a zona euro? Sim e não em ambos os casos.

Comecemos pela Grécia. Em primeiro lugar, perdeu o acesso aos mercados. Nesse sentido, a alternativa a este pacote - independentemente de poder ou não ser implementado - seria a bancarrota. O país deixaria de pagar os juros da dívida, mas teria de liquidar de imediato o défice orçamental primário, de 9-10% do PIB. Uma medida muito mais austera do que aquelas que a Grécia agora aceitou. Numa situação de bancarrota, isso significaria o colapso do sistema bancário. A Grécia faz bem em prometer mundos e fundos para ganhar o tempo de que necessita para eliminar o défice primário de uma forma mais suave.

Custa a crer que a Grécia possa evitar a reestruturação da dívida. Primeiro, vamos partir do princípio que tudo corre como planeado e que os juros médios da dívida a longo prazo se mantêm num nível baixo, por exemplo, em 5%. O país teria, então, de gerir um excedente primário de 4,5% do PIB com receitas equivalentes a 7,5% do PIB, destinadas ao pagamento dos juros. Irá o povo grego suportar esse fardo ano após ano? Segundo, as previsões mais recentes do FMI são, a meu ver, demasiado optimistas. É provável que a drástica redução orçamental agora prevista e a ausência de um contrapeso em termos cambiais ou de política monetária mergulhe a Grécia numa recessão prolongada.

Perante isto, pergunto-me se uma reforma estrutural seria solução. Não, salvo se resultar numa descida significativa dos custos unitários nominais de trabalho, visto a Grécia precisar de uma subida forte e prolongada nas exportações líquidas para contrabalançar o aperto orçamental. A alternativa, uma forte expansão no défice financeiro do sector privado, é inconcebível. Além disso, se os salários nominais descerem, os custos do serviço da dívida serão ainda maiores do que o previsto.

Willem Buiter, economista-chefe do Citigroup, realça num artigo extremamente interessante que outros países com rendimento elevado, entre os quais o Canadá (1994/98), a Suécia (1993/98) e a Nova Zelândia (1990/94), foram bem sucedidos na sua estratégia de consolidação orçamental.

No entanto, importa frisar que, no caso desses países, as condições iniciais eram mais favoráveis. Ora, o que se exige à Grécia neste momento é que faça o que a América Latina fez nos anos 80. Uma década perdida, em que os credores estrangeiros foram os principais beneficiários. Mais: quem vai substituir os credores que hoje são pagos para fugir? Este pacote não vai ajudar a Grécia a regressar ao mercado dentro de alguns anos em termos mais favoráveis. E será preciso mais dinheiro se a reestruturação da dívida grega for - insensatamente - excluída.

Para outros membros da zona euro, o programa evita um choque imediato nos frágeis sistemas financeiros por se tratar, claramente, de uma ajuda à Grécia e, disfarçadamente, de uma ajuda aos bancos. Fica uma dúvida: a que ponto vai ajudar os membros que actualmente se encontram na linha de fogo? Os investidores poderão pensar, tendo em conta a escala do pacote necessário para a Grécia e as dificuldades que marcaram o respectivo processo de aprovação e ratificação, em particular na Alemanha, que os futuros novos pacotes serão, essencialmente, ambíguos.

Outros membros da zona euro ficarão por sua conta e risco. Nenhum está numa situação tão dramática como a Grécia nem nenhum se portou tão mal como a Grécia, no entanto, alguns debatem-se com défices orçamentais insustentáveis e rácios de dívida em rápida ascensão - o que os coloca numa situação semelhante à dos EUA e Reino Unido. A diferença é não terem as mesmas opções estratégicas.

Resumindo, esta história ainda não acabou. No caso da zona euro há duas lições a reter. Primeira: ou se aceita uma situação de bancarrota, por mais confusa que possa ser, ou se institui uma verdadeira união orçamental dotada de forte disciplina e de fundos suficientes para "amortecer" os ajustamentos nas economias mais fragilizadas. Buiter recomenda a criação de um Fundo Monetário Europeu de 2 biliões de euros. Segunda lição: o ajustamento na zona euro só poderá ter êxito depois de os países-chave procederem, também eles, a ajustamentos. Se a zona euro mantiver, no seu conjunto, uma procura fraca ou estagnada corre o risco de se transformar numa arena de desinflação competitiva - onde vai prevalecer a tentativa de empobrecer o vizinho (‘beggar-my-neighbour') - cada vez mais dependente dos mercados internacionais enquanto escape para os excedentes. Ora bem, poucos vão gostar deste desenlace.

As crises que neste momento se desenrolam confirmam o bom senso daqueles que viram na moeda única uma iniciativa particularmente arriscada. Estes choques não constituem propriamente uma surpresa. Pelo contrário, penso que seriam expectáveis. O medo de que a união de países tão distintos iria aumentar a tensão em vez de a reduzir também parece justificado - veja-se o sentimento antieuropeu que entretanto grassa na Alemanha. A zona euro foi criada, logo, tem de funcionar. A ajuda à Grécia é apenas o começo. Ainda há muito para fazer, quer no que respeita à crise imediata quer à reforma da zona euro num futuro não muito distante
."

Martin Wolf

1 Comments:

Blogger pvnam said...

---> Coloquem no google " BES triângulo Ibéria, Brasil, Angola "... vão ficar de boca aberta...

ANEXO:
-> O Ricardo Salgado ("é só" o homem mais poderoso do país) é Judeu.
-> Para os Judeus apenas existe uma Identidade: a Identidade Judaica! -> Tudo o resto são identidades de conveniência... para aparecer e desaparecer...
-> União Europeia, Ibéria, etc -> Identidades de Conveniência... que entre 'n' ao longo da História... apareceram e desapareceram consoante as conveniências...
{nota: os Judeus são «anti» qualquer Identidade aonde não se possam infiltrar-se!}

domingo, maio 09, 2010  

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