domingo, julho 18, 2010

Um problema de saúde pública

"Ao Financial Times, o eng. Sócrates diz que combate as dificuldades enfrentadas pela nossa economia e que tem total confiança nas reformas em curso. O eng. Sócrates diz que combate as dificuldades com coragem. O eng. Sócrates diz que não houve país tão reformista nos últimos cinco anos. O eng. Sócrates diz que o desempenho da economia nos últimos seis meses excedeu as expectativas e confia que o seu plano terá os resultados pretendidos. O eng. Sócrates diz que a reforma das pensões em 2007 tirou Portugal da lista de países com o regime de Segurança Social em risco. O eng. Sócrates diz que nenhum outro membro da União Europeia reduziu tanto a administração pública nos anos recentes quanto Portugal. O eng. Sócrates diz que Portugal foi o único país a rever as leis do trabalho no auge da recessão de 2008 e a enfrentar os sindicatos de modo a introduzir maior flexibilidade. O eng. Sócrates diz que as suas reformas na Educação levaram um computador portátil e o inglês enquanto segunda língua a todas as crianças da escola primária. O eng. Sócrates diz que em 2010 70% da electricidade nacional resultou de fontes renováveis. O eng. Sócrates diz que o contributo do Governo para a ciência tem sido absolutamente extraordinário. O eng. Sócrates diz que Portugal está em franco progresso.

O eng. Sócrates, já o sabíamos, é uma máquina de produzir mentiras cabeludas, meias verdades, verdades inconsequentes e puros contra-sensos. Com o tempo, esse seu talento, o único que possui além do gosto arquitectónico, vem-se aprimorando. O que é natural: à medida que a situação afocinha, a retórica do "optimismo" exige uma distância crescente da realidade. Resta perceber a que distância poderá o eng. Sócrates chegar. Começa a suspeitar-se que o infinito é o limite.

Dias depois da entrevista ao Financial Times, sob a chuva contínua de indicadores económicos calamitosos, o eng. Sócrates dirigiu-se ao Parlamento para manter as alucinações anteriores e acrescentar alucinações novinhas em folha. Em vez de tanto discutirmos o estado da Nação, devíamos discutir o estado dos senhores que mandam nela. Guterres ainda teve a lucidez de fugir do Governo. Hoje, é o Governo que foge daqui, uma excentricidade que só não é inédita porque há um par de séculos D. João VI mudou-se com a corte para o Rio de Janeiro. A diferença é que, embora longínquo, o Brasil é um lugar geográfico: o eng. Sócrates e respectiva corte vão a caminho de uma dimensão paralela e inescrutável, o que nem seria mau se o País não fosse menos imune ao eng. Sócrates do que o eng. Sócrates ao País.

Mas os delírios têm repercussões: em livrinho recente e recomendável, o filósofo inglês Roger Scruton dedica-se a explicar de que modo a cartilha optimista sempre legitimou a irresponsabilidade, mascarou a prepotência e conduziu as nações à ruína, quer na versão extrema (Scruton cita Lenine e Hitler), quer na versão ligeira (Scruton cita, imagine-se, Keynes). Talvez por via mais prosaica, o PSD afirma reconhecer os perigos da fantasia e implicitamente admite que esta espécie de primeiro-ministro barra prestidigitador é um problema de saúde pública. O mistério é não fazer nada para o erradicar. Consta que o dr. Passos Coelho aguarda que o eng. Sócrates se consuma nos próprios devaneios. E nós com ele - óptima estratégia
."

Alberto Gonçalves

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