sexta-feira, março 11, 2011

Cavaco e uma emoção de censura

"Portugal tem um novo Presidente da República. Começou ontem o seu mandato. É a mesma pessoa de há cinco anos. Mas é outro Presidente. É um Presidente, finalmente.

Dizer que "o País precisa de um sobressalto cívico" não é uma declaração de guerra política, é um grito para que a sociedade acorde do torpor. Não é um grito inocente, pois legitima e dá força às manifestações da "geração à rasca" marcadas para sábado. Mas é incitamento? Ou é descompressão? É o que o Presidente já devia ter feito há muito tempo - declarações políticas fortes na Assembleia da República. Agora é um Presidente livre, reeleito, sem nada a perder nem a ganhar.

Tratar manifestações como brincadeiras de carnaval é provocação. O maior erro dos políticos será zombar da tensão que se acumula entre os excluídos. Ela ou se esvai ou rebenta. Portugal vive momentos estranhos e a descredibilização das instituições deixa um vazio sobre o pedestal onde estavam as referências. Quem são hoje os guardiães da democracia, da ética, da lei? Em que pessoas acreditamos quando listamos quem nos inspira e protege? Por quem pomos as mãos no fogo? Quem põe as mãos no fogo por nós?

Como mostram as sondagens, a opinião dos portugueses sobre as suas instituições resulta numa devastação. Assembleia da República, tribunais, Ministério Público, Governo, de todos nos sentimos órfãos. Nos últimos anos, e ressalvando entidades como o Tribunal de Contas, que não têm o mesmo impacto social, o Estado não tem prevalecido. Também a Presidência da República se degradou, com os casos das escutas e do BPN, com um Presidente que foi um desaparecido sem combate. O discurso de ontem pretende inverter isso.

Muitos quiseram resumir a energia deste mandato de Cavaco Silva a uma decisão: se derruba ou não o Governo. Em vez de um detonador, o Presidente trouxe um programa de Governo. E não é um programa qualquer, é uma lista de prioridades e críticas que Angela Merkel subscreveria ou já subscreveu: leis laborais, justiça, Obras Públicas... E quando Cavaco diz que "seria desejável que o caminho a seguir fosse consubstanciado num programa estratégico de médio prazo, objecto de um alargado consenso político e social", não está a pedir demolições na Assembleia da República, mas novas construções. Acordos, parcerias - coligações?
Entrámos numa paranóia nos últimos meses de que ser patriota é estar calado; de que a união que faz a força é a fingida. Só podemos dizer mal se for baixinho, não vá um "camone" ouvir e dizer aos mercados que estamos péssimos. Ora, eles sabem que estamos péssimos. E sabe-o também o Presidente, que avisa que não será "mira-carpetes" como outro já foi, e que doravante não se fará de morto como até aqui se fez.

O mês de Março é decisivo para o futuro da UE e, nisso, para o de Portugal. Será definida a forma como seremos ajudados hoje e do que teremos de abdicar amanhã. Cavaco também está na Barca do Inferno agora liderada por Sócrates que um dia será julgada pelo que fez e deixou fazer. Mas as responsabilidades passadas não os podem coarctar do que têm de fazer, pela simples razão de que estão eleitos para fazê-lo.

Um Presidente da República não é um capacho do Governo, é um agente político eleito. E ser garante da Constituição não é ser Juiz do Tribunal Constitucional. Queriam um Presidente cativo, mortificado, consentidor, um Presidente papel-parede? Alguns queriam. Já o tiveram, foi há cinco anos, agora acabou. Para que serve um Presidente da República? Serve para isto. Agora eles. Agora nós
."

Pedro Santos Guerreiro

2 Comments:

Anonymous Anónimo said...

O P.R. só está a sacudir a àgua do
capote, no seu discurso limitou-se
a manipular números ao sabor da sua conveniência, desde que passou
pelo ministério das finanças nos
anos 80, e formou os governos de maioria absoluta no tempo das vacas gordas, que é um dos princi-
pais responsáveis pela situação que, presentemente vivemos! A críse
internacional só veio pôr a claro a debelidade da nossa economia,
sempre gastámos mais do que é produzido no País! Não haja ilusões dali não vem nada de bom
para os portugueses!

domingo, março 13, 2011  
Blogger skeptikos said...

Se do actual PR nada vem de bom, agora, que está livre para exercer como deveria ter sido sempre a sua obrigação, nem tão pouco de nós enquanto cidadãos responsáveis e responsabilizados pelas facturas vencidas, então o melhor é mesmo pegarmos todos numa pá e começarmos a cavar as nossas sepulturas e as dos nossos filhos.
Somos tão bons quanto esta corja de vampiros que nos tem sugado o erário público há décadas, se nada fizermos para mudarmos o que está mal. Decididamente o que está mal é não exigirmos a devida transparência nas contas públicas. Por que não começarmos por aí e depois vamos ao resto que se faz tarde!?

segunda-feira, março 14, 2011  

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