terça-feira, outubro 13, 2009

Um dólar mais fraco

"Imagine um mundo com um défice de contas correntes baixo nos EUA, um défice ligeiramente mais elevado na zona euro e um excedente asiático não muito grande.

Num mundo como esse, os comentadores deixariam de bater na tecla dos desequilíbrios globais e teriam que procurar um ângulo diferente para os seus comentários.

A longo prazo, um mundo como esse exigiria uma reforma significativa do sistema monetário internacional. A curto prazo, uma baixa da taxa de câmbio do dólar ajudar-nos-ia a chegar lá. E noto com alguma satisfação que é isso que está precisamente a acontecer.

Um dólar mais fraco seria desejável, uma vez que ajudaria os EUA a conseguir recuperar da forma correcta. A economia norte-americana está a ser fortemente afectada pela desalavancagem das famílias e do sector financeiro e pela quebra do seu crescimento potencial. Uma vez que não se antevê para já uma bolha no imobiliário, uma recuperação à boleia das exportações seria assim a melhor estratégia de crescimento por parte dos EUA.

Não concordo com as posições do secretário do Tesouro, Tim Geithner e Larry Summers, director do Conselho Nacional Económico, que defendem um dólar forte. Caso contrário os mercados obrigacionistas ficariam desnorteados. Mas um dólar forte é a última coisa que os EUA precisam.

E existem outros factores que justificam a defesa de um dólar fraco. O primeiro prende-se com défice das contas públicas, na ordem dos dois dígitos, que perturbou os investidores e que não vai baixar assim tão depressa. O segundo é a política monetária.

Existe um pequeno risco de inflação, a curto prazo, mas um risco inflacionista muito significativo depois da crise. Duvido que a Reserva Federal aponte para uma inflação na ordem dos 6%, como alguns economistas norte-americanos agora propõem.

Os comentários de Bill Dudley, presidente da Reserva Federal de Nova Iorque, confirmou as minhas suspeitas quanto à posição tendenciosa do Fed, quando afirmou que estava mais preocupado com a deflação do que com a inflação e que as taxas de juro se manteriam baixas por algum tempo.

Repetem-se assim os cenários de 2003 e de 2004 com a diferença que desta vez teremos maiores probabilidades de assistir a um fim da inflação do que a uma bolha no imobiliário e no crédito.

E no que toca à Europa e ao euro? Os europeus não lutariam com unhas e dentes contra um enfraquecimento do dólar? Não necessariamente.

Basta olhar para esta situação, na perspectiva do Banco Central Europeu, uma instituição que preferiria retirar liquidez e aumentar as taxas de juro, mas que está de pés e mão atadas, uma vez que são muitos os bancos europeus que continuam dependentes das baixas taxas de juro e do apoio do BCE para a sua sobrevivência, sendo que um euro forte é visto como mais eficaz para combater a inflação
."

Wolfgang Münchau

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