sexta-feira, outubro 21, 2011

O Siva das vacas


O Silva das vacas
 Algumas das reminiscências da minha escola primária têm a ver com vacas. Porquea D.ª Albertina, a professora, uma mulher escalavrada e seca, mais mirrada queuva-passa, tinha um inexplicável fascínio por vacas. Primavera e vacas. Deforma que, ora mandava fazer redacções sobre a primavera, ora se fixava natemática da vaca. A vaca era, assim, um assunto predilecto e de desenvolvimento obrigatório, o que, pela sua recorrência, se tornava insuportavelmente repetitivo. Um dia, o Zeca da Maria "gorda", farto de escrever que a vaca era um mamífero vertebrado, quadrúpede ruminante e muito amigo do homem a quem ajudava no trabalho e a quem fornecia leite e carne, blá, blá, blá,decidiu, num verdadeiro impulso de rebelião criativa, explicar a coisa de outra forma. E, se bem me lembro ainda, escreveu mais ou menos isto: 

     "A vaca, tal como alguns homens, tem quatro patas, duas à frente, duas atrás, duas à direita e duas à esquerda. A vaca é um animal cercado de pêlos por todos os lados, ao contrário da península que só não é cercada por um. O rabo da vaca não lhe serve para extrair o leite,mas para enxotar as moscas e espalhar a bosta. Na cabeça, a vaca tem dois cornos pequenos e lá dentro tem mioleira, que o meu pai diz que faz muito bem à inteligência e, por não comer mioleira, é que o padre é burro como um tamanco. Diz o meu pai e eu concordo, porque, na doutrina, me obriga a saber umas merdas de que não percebo nada como as bem-aventuranças. A vaca dá leite por fora e carne por dentro, embora agora as vacas já não façam tanta falta, porque foi descoberto o leite em pó. A vaca é um animal triste todo o ano, excepto no dia em que vai ao boi, disse-me o pai do Valdemar "pauzinho", que é dono do boi onde vão todas as vacas da freguesia. Um dia perguntei ao meu pai o que era isso da vaca ir ao boi e levei logo um estalo no focinho. O meu pai também diz que a mulher do regedor é uma vaca e eu também não entendi. Mas,escarmentado, já nem lhe perguntei se ela também ia ao boi."

    Foi assim. Escusado será dizer que a D.ª Albertina, pouco dada a brincadeiras criativas, afinfou no pobre do Zeca um enxerto de porrada a sério. Mas acabou definitivamente com a vaca como tema de redacção. Recordei-me desta história da D.ª Albertina e da vaca do Zeca da Maria "gorda", ao ler que CavacoSilva, presidente da República desta vacaria indígena, em visita oficial aos Açores, saiu-se a certa altura com esta pérola vacum: "Ontem eu reparava no sorriso das vacas, estavam satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Este homem, que se deixou rodear, no governo, pelo que viria a ser a maior corja de gatunos que Portugal politicamente produziu; este homem, inculto e ignorante, cuja cabeça é comparada metaforicamente ao sexo dos anjos; este político manhoso que sentiu necessidade de afirmar publicamente que tem de nascer duas vezes quem seja mais honesto que ele; este"cagarola" que foi humilhado por João Jardim e ficou calado; este homem que, desgraçadamente, foi eleito presidente da República de Portugal, no momento em que a miséria e a fome grassam pelo país, em que o desemprego se torna incontrolável, em que os pobres são miseravelmente espoliados a cada dia que passa, este homem, dizia, não tem mais nada para nos mostrar senão o fascínio pelo"sorriso das vacas", satisfeitíssimas olhando o pasto que começava a ficar verdejante"! Satisfeitíssimas, as vacas?! Logo agora, em tempos de inseminação artificial, em que as desgraçadas já nem sequer dispõem da felicidade de "ir ao boi", ao menos uma vez cada ano!

     Noticiava há dias o Expresso que, há mais ou menos umano e aquando de uma visita a uma exploração agrícola no âmbito do Roteiro daJuventude, Cavaco se confessou "surpreendidíssimo por ver que as vacas,umas atrás das outras, se encostavam ao robô e se sentiam deliciadas enquantoele, durante seis ou sete minutos, realizava a ordenha"! Como se fossepossível alguma vaca poder sentir-se deliciada ao passar seis ou sete minutoscom um robô a espremer-lhe as tetas!! Não sei se o fascínio de Cavaco por vacasterá ou não uma explicação freudiana. É possível. Porque este homem devejulgar-se o capataz de uma imensa vacaria, metáfora de um país chamadoPortugal, onde há meia-dúzia de "vacas sagradas", essas sim comdireito a atendimento personalizado pelo "boi", enquanto as outrassão inexoravelmente "ordenhadas"! Sugadas sem piedade, até que dastetas não escorra mais nada e delas não reste senão peles penduradas, mirradase sem proveito.
 A este "Américo Tomás do século XXI" chamou um dia João Jardim, o "sr. Silva". Depreciativamente, conforme entendimento generalizado. Creio que não. Porque este homem deveria ser simplesmente "o Silva". O Silva das vacas. Presidente da República de Portugal. Desgraçadamente.

 Luís Manuel Cunha in «Jornal de Barcelos», 5 de Outubro, 2011.
Apenas não concordo com a comparação a Américo Tomaz, porque a história lhe fará justiça, agora isto seria uma grande estucha como ele muitas vezes lamentava determinados actos oficiais e outros problemas, mas isso é outra história.

11 Comments:

Anonymous Félix said...

Estamos a seguir os mesmos passos da Grécia e não há maneira de acordar estes políticos. Não adianta transformar os pobres em miseráveis. Que lhes importa que a meio do ano não haja dinheiro para os livros, para as próteses, para os óculos, o que eles querem é terem o deles garantido. E depois aparecem na televisão com cara de santos e de inteligentes, sem uma ponta de sensibilidade.

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous Anónimo said...

Portugal tem dois problemas
1-A divida publica
2-A divida externa
A Dívida Publica até não é o maior problema porque está quase ao nível médio da zona euro. Para essa contribuem os empregados públicos porque são pagos pelo Orçamento.
O problema maior é a Dívida Externa e para essa contribuem o Estado, as Empresas e as Famílias, sejam f Publicos ou Privados. Quando cada um de nós faz um crédito á habitação ou compra mercadorias importadas, automóveis por exemplo, está a endividar externamente o país provavelmente sem o saber. E porquê? Porque o seu banco deu o seu credito em garantia para pedir empréstimos no exterior visto que a nossa poupança interna i e depositos, não chega para todo esse credito. E só à habitação o credito global são 114 Mil Milhões de Euros

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous JPH said...

O Presidente da República considera que o corte nos subsídios de férias e de Natal dos funcionários públicos viola o princípio da equidade fiscal. São medidas duras. Ninguém gosta delas. Mas são medidas, estas ou outras equivalentes, necessárias.
E quando os trabalhadores do sector privado pagam impostos para manter artificialmente milhares de postos de trabalho no Estado, financiados pelos impostos dos restantes trabalhadores, não há violação da equidade fiscal?
E quando as receitas do Estado, pagas por todos os portugueses, são utilizadas para manter empresas e organismos públicos sem actividade, ou com regalias desproporcionadas da realidade da sociedade portuguesa, reduzindo os recursos disponíveis para financiar as PME, essas sim geradoras de emprego, não há violação da equidade fiscal?
E quando um trabalhador de uma empresa têxtil ou de calçado perde o emprego e continua a pagar impostos, que servem para financiar a manutenção de empregos não necessári

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous Costa said...

Alguém falou em cortar nas PPPs ??? !!! Nem pensar...
E depois de que viviam os nossos privados... Como poderiam os administradores dessas empresas, receber os principescos vencimentos e prémios que recebem? Como poderiam assim guardar lugares em futuras administrações para os ex-governantes?
A solução para este país é escravizar os trabalhadores da Função Pública ( excepto a AR, a CGD, o BP, a TAP, etc... ). Prender todos os que tenham opinião diferente deste governo, e eventualmente fuzilar os que tenham a ousadia de a expressar em público ( pois estão a 'minar' a confiança dos restantes portugueses ). Todos juntos e bem comportados, rumo ao abismo final ...

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous O próximo said...

Dentro de alguns meses, quando todos estes competentíssimos, hiper profissionais e altamente produtivos, trabalhadores do privado ( os incompetentes, calões e brutos estão todos no sector público ) forem sendo chamados às respectivas administrações, para ouvirem a conversa do costume '' ... como sabe, a situação económica é dificil. Isto custa-nos muito, mas para não ser despedido e levar com estas novas indeminizações de miséria, se calhar vamos ter de lhe cortar o subsídio de férias e de natal. Compreende não é ? ...'', talvez nessa altura percebam que afinal os funcionários publicos não são os verdadeiros culpados de toda esta situação em que nos encontramos. Espero é que nessa altura não seja já tarde de mais para protestar...

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous Anónimo said...

"Cortar salários durante dois anos é apenas ganhar tempo."

Concordo plenamente. Assim nunca conseguiremos equilibrar, de um modo estrutural, as contas do estado. Escravidão já. Uma malga de arroz é paga mais que justa para essa cambada pública. Assim sobrará dinheiro para o que verdadeiramente interessa. Mais PPPs, melhores vencimentos e regalias para políticos e deputados, mais Institutos e Fundações públicas. Assim poderiamos atrair para a politica gente de valor como o autor deste artigo. Gente que sem duvida levaria Portugal para o Sucesso. Pelo menos o seu... à custa, claro, de muitos outros portugueses...

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous Realista said...

Eu penso que desta vez Cavaco agiu bem e agiu na altura propria. Vamos lá a ver. Sem dúvida que necessitamos de baixar o nosso nível de vida de forma significativa. Mas temos que o fazer de forma equitativa, repartindo o sacrificio o mais justamente possivel. A proposta de OE do governo faz precisamente o contrario, abrindo caminho para revoltas sociais que são sempre de evitar. É possivel que o salario medio dos fp seja superior ao dos privados. Mas porque se aplica a pessoal em grande parte com formação superior: professores, medicos, enfermeiros, etc. Podem provar que um medico ou um professor ganha mais no público que no privado? Os reformados do regime geral no máximo ganham 80% do salario dos últimos 15 anos. Os reformados da CGA ganham 100% do último vencimento. É a mesma coisa? Têm consciencia das dificuldades de muitos reformados em custear os medicamentos. É justo vir aqui buscar receita. ESTA PROPOSTA NÃO TEM PÉS NEM CABEÇA! E a altura para a denunciar era

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous  said...

O que o Dr Cavacoo anda a fazer é outra coisa. Será que não se vê claramente?
Está preocupado apenas em branquear a sua acção como Primeiro Ministro. Foi durante o "reinado dele" que foram destruidas as nossas fracas estruturas produtivas. Foram desbaratados os fundos que levariam Portugal a criar condições de sustentabilidade.
Vamos assistir a várias intervenções na tentativa de desviar as atenções e impedir que se façam análises sobre os verdadeiros responsáveis da situação a que chegamos.

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous José said...

Se Cavaco foi partidário que dizer de Soares (sempre a vetar) e então de sampaio com o seu golpe palaciano que derrubou uma maioria absoluta. Além disso estas autonomias caciqueiras deviam de acabar 245 mil pessoas nos Açores não justificam um governo autónomo. E sampaio foi o responsável pela subida ao poder da bandidagem do socrates claro que os votantes também se deixaram enganar e socrates foi a desgraça. O ps neste momento só tem uma saída dissolver-se ou ser dissolvido!

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous Sergio said...

Basta consultar os textos dos últimos discursos do presidentinho de Portugal, e comparar as suas intervenções, que é evidente, para qualquer pessoa isenta e de bom carácter, sem compromissos partidários, que aquele indivíduo foi parcial na útima mudança de governo. Tivesse usado dos seus poderes, e sem ardís político-partidários, esse pequeno mandatado teria legitimamente desconstituido o governo e marcado eleições. Ao invés, inflamou a nação com uma crispação política totalmente inconveniente num momento de crise e aprofundou faltas de convergências necessárias para implantação de medidas corretivas de rumos. Este senhorzinho é um dos responsáveis, por ação direta e omissão, do atual estado económico e anímico da sociedade portuguesa. A história lhe será implacável.

sexta-feira, outubro 21, 2011  
Anonymous Anónimo said...

Bem seria fácil resolver esta crise e acabar com mais esta palhaçada que nos querem infligir com as consequentes despesas que como sempre sairão dos nossos bolsos. O povo sair à rua e fazer manifestações tal e qual a da geração rasca exigindo o seguinte. Reunião do Sócrates, o Coelho e o Cavaco numa mesa perante um órgão da comunicação social, durante três horas, quatro as que forem precisas para nos explicarem o motivo pelo qual devemos ir para novas eleições. Quais as medidas alternativas que o PSD tem que não sejam as mesmas que o PS, quando já emitiu um comunicado em Inglês para a SR. Merkel ler, a dizer que se compromete a fazer cumprir estas mesmas medidas e mais gravosas se for necessário para comprazer a sua Exª. Depois em vez de aumentar os salários aos políticos como apregoa o Coelho, mais bem tem que se diminuir e cortar nas despesas e mordomias de que cada um destes afortunados dispõe ao nível dos países mais

sexta-feira, outubro 21, 2011  

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