segunda-feira, abril 30, 2012

Holandas...

"Já poucos se recordarão que quando eclodiu a crise do ‘subprime’, o então presidente do Brasil, Lula da Silva, declarou para quem o quis ouvir que se tratava de uma crise causada por “homens de olhos azuis”.

Ao longo destes nefastos anos que estamos a viver, desde que a dívida desabou sobre nós tem-nos persistentemente sido vendida a ideia que a culpa é nossa, que gastámos muito mais do que devíamos e que, no fundo, tínhamos que pagar por luxos passados e que enganámos os nossos credores porque não empregámos bem o dinheiro que nos emprestaram. Como em tudo na vida, a verdade não se desenha a preto e branco. Obviamente houve excessos e, da Madeira ao túnel do Marão, abundam os exemplos. Mas também temos novos e úteis hospitais, escolas renovadas e um parque eólico de fazer inveja a muitos. Temos auto-estradas inúteis, mas também muitas que nos são úteis. Temos, enfim, um país que deu um salto de gigante sobre o inacreditável atraso que patenteava há apenas 40 anos. E não falo do avanço dos indicadores de esperança de vida, da (baixíssima) mortalidade infantil, mobilidade, acesso à banda larga, etc., etc.. É pois completamente errado concluir que toda a gestão do dinheiro, nosso e emprestado, foi pura e simplesmente desperdiçado em pensões e subsídios ou desencaminhado pelos becos da corrupção. Há obra.

Falemos agora da origem da presente crise. Como já mencionei acima, a crise do ‘subprime' desencadeou uma série de eventos em cascata, entre eles ter apanhado os bancos alemães altamente encalacrados com o dinheiro que lá tinham posto, eventos esses que acabaram por também nos vir bater à porta. Vamos então por partes. O nosso problema é a nossa dívida soberana? Mas então, se é assim, porque é que a Espanha que tem uma das dívidas públicas mais baixas da União está hoje à beira do precipício? Então, será que o nosso problema é a insustentabilidade da Segurança Social, muitas pensões, muitos subsídios, muitos rendimentos mínimos garantidos? Mas então não estará pior a França que dá reformas aos 62 anos, ou a Alemanha que tem um problema demográfico ainda pior que o nosso que, ainda por cima, já foi reformado e bem reformado? Bom, talvez seja o défice público... mas, ele não baixou o ano passado? E não baixará este ano? E não será inferior ao francês, inglês e, certamente, ao americano? É que a nossa balança de pagamentos é muito desequilibrada. E a Itália, que tem superavit primário, não está a braços com "os mercados"? É o crescimento! E a Irlanda?

Poderia continuar. Mas quero apenas relembrar aqui dois factos o primeiro dos quais, não sei porquê, anda esquecido: a França e a Alemanha foram os primeiros países a ultrapassar o limites dos 3% de ‘deficit' nas contas públicas. Deram o exemplo para evitar recessões. E, nos últimos dias, a Holanda viu cair o seu governo quando um partido de extrema-direita (!!!) se negou a espartilhar o seu pais para obedecer à regra quase totalmente artificial e arbitrária de um ‘deficit' que lhe querem impor. O ‘deficit' e a disciplina foram mandadas às ortigas porque a crise lhes bateu à porta e há que salvaguardar... o crescimento.

Quaisquer afirmações com tons xenófobos e nacionalistas como a declaração de Lula da Silva são sempre de condenar. Mas, convenhamos, esta crise não é inteiramente nem sequer principalmente causada por nós. Mas somos nós quem sofre as suas consequências. Os pobres que paguem a crise!"

Ricardo Monteiro

1 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Não, não são de condenar é a verdade, foram e sempre foram os agiotas do costume.

quarta-feira, maio 02, 2012  

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