segunda-feira, maio 14, 2007

Pátria

"Continuamos alegremente incultos, atavicamente analfabetos, orgulhosamente iletrados. Depois de ter visto os milhares de portugueses que, em êxtase, decidiram ir todos em peregrinação ao túnel do Marquês, essa obra que nos engrandece e enaltece, por estranha associação lembrei-me de uns excertos que um amigo, cúmplice e generoso, me enviou e que descrevia os nacionais como: “ Um povo imbecilizado e resignado (...) um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai”. Trata-se de “Pátria” de Guerra Junqueiro e foi escrito em 1896.

Mais de 100 anos passaram mas, na verdade, há coisas cá no burgo que são eternas. Habituados a olhar para Eça como o grande observador da sociedade da sua época, esquecemos frequentemente os seus contemporâneos. Reler agora o que Guerra Junqueiro critica em “Pátria” pode ser deprimente. A realidade de há 100 anos está tão próxima da nossa, a viscosidade reinante é tão similar, que nos podemos questionar se, no fundamental, algo mudou. E se não mudou, como é que acabámos assim?

Quando Guerra Junqueiro fala de “uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula, não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, (...)” está não só a fazer um retrato genericamente ácido da sua/nossa classe média, está também a proceder ao diagnóstico de uma doença para qual não parece haver cura. É bom que nos lembremos que já era assim no século XIX, que foi assim no século XX, e que possivelmente assim será no século XXI.

Quando implacável acrescenta “havendo homens (...) capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis (...)” a evocação dos casos mais recentes que vieram a público na comunicação social é inevitável. Entre o gáudio mesquinho e a admiração bacoca pela esperteza nacional houve de tudo um pouco. É desencorajador constatar que se sempre houve corrupção, sempre houve favores, sempre a traficância foi um modo de vida, hoje em dia, apesar de sofisticados e europeus como nos gostamos de imaginar, continuamos indiferentes, continuamos a encolher os ombros. E muito terceiro-mundistas continuamos também a elegê-los: nas autárquicas, nas regionais, nas legislativas.

Profético, dizia Guerra Junqueiro dos principais partidos da época: “dois partidos (...), sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes (...) vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...).” Se hoje algum comentarista político utilizasse esta mesma fraseologia para os nossos dois maiores partidos não estaria longe da verdade. Os Dupont e Dupond que nas últimas décadas alternadamente nos têm vindo a governar deixaram atrás de si todo um rasto de magníficas incompetências e excelentes mediocridades.

Graças a eles temos ainda, tal como em 1896, “um poder legislativo, esfregão de cozinha do executivo (...).” As cumplicidades nunca assumidas entre os dois partidos mas por demais evidentes na vida pública, e em algumas vidas privadas, foram gerando vários monstros, destacando-se negativamente pelo peso e influência nos destinos de todos, a Educação e a Justiça. Nada neste país irá evoluir de forma sustentada sem reformular radicalmente estas duas áreas. Dezenas de ministros da Educação e Justiça, e respectivas cortes e bobos, são os responsáveis pela irrelevância da política educacional e ineficácia da justiça ao longo dos tempos.

Na época, Guerra Junqueiro descrevia o ‘status quo’ assim: “instrução miserável, marinha mercante nula, indústria infantil, agricultura rudimentar.” O que mudou entretanto? Continuamos alegremente incultos, atavicamente analfabetos, orgulhosamente iletrados. Melhorou a indústria mas em contrapartida desapareceu a agricultura. O comércio é o espelho do país. No fundo, e pedindo desculpa pelos anglicismos, adoptámos a ‘high tech’ sem ter acabado a ‘high school’
."

João Ferreirinho

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