quarta-feira, setembro 24, 2008

A ENÉSIMA MORTE DO CAPITALISMO

"Consta que o capitalismo entrou em mais uma crise irreversível. De vez em quando, acontece: Wall Street é acometida de convulsões e puritanos de filiação diversa aproveitam para apontar as "contradições internas" do "sistema", as quais fatalmente terminariam na tragédia em curso.

A sério? Em finanças e astrologia, sou um ignorante. A vantagem é que pareço partilhar a ignorância com imensas sumidades do ramo. É possível que, daqui a umas semanas, a crise irreversível tenha sumido e ninguém se recorde do assunto. Enquanto o abalo dura, porém, é interessante notar a alegria com que alguns encaram a exacta catástrofe que denunciam. Não deixa de ser estranho que um acontecimento tão dramático os excite tanto.

Taras à parte, a realidade que os excitados desprezam recomenda-lhes moderação no pessimismo e contenção no gozo. Nem vale a pena lembrar a quantidade de ocasiões em que, só desde 1973, a morte do capitalismo foi anunciada com excessiva sofreguidão. Vale lembrar que as falências desamparadas como a da Lehman Brothers não constituem uma evidência do falhanço capitalista. Suponho até que, ao penalizarem os piores, as falências sejam sintoma do seu perfeito funcionamento.

Em nome da isenção, é igualmente de admitir que falências assim não se devam às regras do capitalismo, mas à sua subversão. Apesar de os críticos lhe chamarem "selvagem" e reclamarem controlo "superior", a verdade é que a trela do estado norte-americano no mercado financeiro não se estreou no resgate da AIG ou, dias antes, da parelha Fannie Mae e Freddie Mac. Dito de outra maneira, talvez a "nacionalização" de uma empresa moribunda prove menos as carências de regulação do que os excessos de regulação. E, de agora em diante, "excessos" é o termo. Sobretudo no caso da seguradora, acredita-se que o salvamento da AIG evitou o desgosto de milhares. Não se acredita que, ao isentar de responsabilidade os envolvidos, a caridade de George W. Bush não venha a provocar maiores desgostos futuros. Por definição, governos dão péssimos gestores. E gestores protegidos por governos, também.

O capitalismo, que à semelhança da vida avança através de cabeçadas e emendas, possui na essência uma dose de risco. Se a remoção do risco a expensas dos contribuintes não impede (e eventualmente propicia) as cabeçadas, de certeza que dificulta as emendas. Mesmo um leigo em futurologia consegue perceber uma ou duas coisas do passado. Pensando melhor, se calhar o capitalismo está em crise, embora não seja a crise que nos vendem. E que nós, tontinhos, compramos
."
Alberto Gonçalves

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