"O peixe pode vir a faltar nos mercados. O arroz já está a ser racionado em certas cadeias de supermercados. Agricultores vão deixar os tractores e voltar às charruas puxadas a animais. E o Governo considera “indecoroso” mexer nos preços dos combustíveis. O tipo de organização económica e social baseado na ditadura da finança, na especulação, na promoção da desigualdade e da injustiça é um fiasco que apenas faz regredir a história.
A par das notícias da crise há novas sobre a acumulação obscena da riqueza: empresas que só conhecem a receita dos despedimentos para emagrecer as despesas duplicam os quadros de administração com remunerações e outras benesses escabrosas. Os lucros que ofendem a vida de dificuldades da imensa maioria da população não admitem correr o mínimo risco: qualquer flutuação dos custos é imediatamente descarregada sobre os consumidores. E o Estado ajuda à festança carregando os impostos de uns e descarregando emolumentos para outros. Contava o Público de ontem que as Finanças têm em estudo uma proposta para pôr as grandes fortunas a salvo de credores privados, do Fisco e da Segurança Social.
Já nem sequer se trata do desrespeito pelo princípio constitucional da subordinação do poder económico ao poder político eleito. Trata-se da apropriação do aparelho de Estado pelo poder do dinheiro em seu exclusivo e abusivo benefício. A ser verdade estaremos perante o mais vexatório sentido do que é e deve ser o Estado, numa concepção e numa prática, essas sim, verdadeiramente indecorosas. Se a notícia se confirma, isso significará, muito simplesmente, o fim da democracia e do Estado de direito. Custa a crer mas esse será, verdadeiramente, o Estado… a que isto chegou."
João Paulo Guerra
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