Foi com tristeza e também alguma angustia que observei, via comunicação social, o que se passou neste Domingo, na reunião do Conselho Nacional do CDS.
Não vou, naturalmente, abordar a minha posição sobre os motivos que levaram à sua convocação, nem sequer pronunciar-me sobre factos que ambas as partes (com compreensíveis – porém não inocentes – cargas de subjectividade e emoção) alegam ter ocorrido.
Não estive lá. Tão pouco desempenho hoje qualquer cargo eleito em qualquer estrutura do Partido. Os motivos para que tal, pouco aproveitam para o caso: quem os sabe, sabe-os… e os mesmos pouco importam aos demais. E se, para alguns, essa condição de ”completamente solto, completamente livre” seria um imperdível convite à “opinianite” para “dar nas vistas” e negociar ou vender apoios, para mim é motivo de reflexão. Guardo para mim as conclusões. Até ao momento que for definido para que os simples militantes com ideias se pronunciem. Sei bem o que entendo dever ser a função de um partido. E qual deveria ser o desafio e o elemento mobilizador e agregador deste Partido. Mas, a seu tempo, se puder, voltarei a pronunciá-lo...
Não estive, repito, nesta reunião. Todavia, a serem verdadeiros os dados objectivos noticiados (que foi a mais concorrida e participada reunião de que há memória – coisa memorável e agradável – e que cerca de 2/3 dos presentes votaram favoravelmente a proposta do Dr. Paulo Portas), é razoável que se conclua que uma significativa maioria dos Conselheiros eleitos pelo Congresso (da Batalha) em lista apresentada pelo Dr. Ribeiro e Castro votaram contra a proposta daquele a quem deviam a sua eleição. E a favor de quem se apresentaram e se disponibilizaram defender. E é sobre isso, não sobre o conteúdo da decisão mas sobre o comportamento, que eu não quero nem me posso nem dar ao luxo de não comentar.
Bem sei que em política há poucas forças mais irresistíveis do que a tentação de abraçar o inevitável: alguns seres humanos, que se habituaram a viver em rebanho, em grupos de invertebrados perfeitamente identificados, nunca deixarão de correr para a segurança que lhes parece poder ser proporcionada pelo vencedor anunciado. Mas, dessa doença, far-me-ão justiça, não padeço. Se há quem diga que o poder proporciona muitos luxos, o pouco que tive à minha disposição serviu apenas para cultivar e desenvolver os três defeitos que me permito sofrer: o de agir com Honra, o de procurar cumprir o dever da gratidão e o de jamais deixar de ter vergonha na cara! Sei bem que há quem, por os considerar luxos morais típicos de um orgulhoso oriundo do proletariado, os despreze. Que seja! Todavia, sem eles mais valeria morrer no grande cemitério onde repousam todos aqueles que fizeram do anonimato o seu modo de participação.
Por isso, jamais me passaria pela cabeça que, eleito em lista patrocinada por uma liderança, criada e ordenada para ser uma das suas estruturas de sustentação, jamais, dizia, usaria esse direito de voto para apoiar os adversários da mesma. Não quero com isto dizer que a mudança de opinião não seja admitida ou sancionada... ainda que, no caso concreto, não vislumbre a alteração das circunstâncias que sustente motivos sérios e eticamente atendíveis para tal comportamento. Contudo, uma vez mais, a culpa minha... consciência em excesso..., mas, quando se muda de opinião, entendo que: primeiro, anunciamos o facto ao próprio; segundo, devemos pedir-lhe que nos liberte das amarras da lealdade a que voluntariamente nos ligamos, renunciando aos cargos e às vantagens obtidas; terceiro, e só então, publicamente anunciando os motivos e passo a defender as minhas convicções com as minhas próprias forças e assente com a legitimidade política que adviesse de eleição na qual houvesse sido o protagonista principal..., e não um mero excursionista que apanha boleia e depois se julga com direito próprio para escolher um caminho de conveniência e cobardia. Assim, poderia ser livre e solto, com a séria e fundada convicção de tudo ter feito para agir com correcção. Isso chama-se carácter. E esse é o único caminho. O único que aceito trilhar. O único em que se ganha de verdade... e onde, mesmo perdendo, se conserva a dignidade e o respeito dos outros.
E (porque, graças a Deus, não estou em situação de ter que aceitar companhias indesejáveis), perante a proximidade que, com asco... ainda que sem espanto,... vejo ser permitida a certas e pouco recomendáveis personagens de pantomina de fraquíssima qualidade, não escondo que, por respeito a mim próprio e à sanidade ética e mental em que busco viver, por ora pouco me resta senão a – nada confortável, porém honrosa – posição de abstencionista. Por ora, enquanto for evidente que ambos os barcos estão em regime de “saldo”... e que os ratos se afadigam em alternadas propostas de OPA (Ofertas Para-não-levar-a-sério de Apoio-a-quem-me-der-mais)... opto por ficar na ilha. Lamento que sejam dadas observar excessivas cedências que os candidatos parecem estar dispostos a fazer aos “opistas”, abusando e tornando a abusar de critério pouco selectivos nas companhias. Como se aqueles comportamentos não sejam repetidos, uma e outra vez… ad nauseaum... é que, “pelo andar da carruagem”, arriscamo-nos a que se repitam... per secula seculorum! Bem sei que tal não é um exclusivo do CDS. Mas, como conservadores que alguns se arrogam de ser, seria bom ter em atenção as sábias palavras de Winston Churchill, «quanto mais olhares para trás, maiores possibilidades terás de ver melhor em frente».
Bem sei poder soar a moralismo ridículo, mas nunca me pareceu bom motivo manter o Poder a qualquer preço, nem me parece um saudável e esperançoso sinal de mudança procurar (ou permitir) a companhia feita do “ranço” dos invertebrados do costume. Seria bom que todos não esquecessem que o político que não é forte na preservação dos seus princípios acaba por ter de ser violento e, deste modo, acaba vítima de qualquer das soluções que adoptar para resolver o dilema do limite das transigências que rebaixam e das violências que a todos comprometem e aos inimigos aproveitam. É por isso que creio ser esta uma daqueles ocasiões em que não tenho dúvidas que mais vale só...
Parafraseando, adaptadamente, um já vetusto e alheio sound-byte,... não sei se este CDS tem emenda!?! Confesso que, porém, ainda aguardo pelo vislumbre de uma proposta, uma ideia mobilizadora que, em mim, justifique motivos de esperança. Que, de facto, adoraria voltar a sentir. Mas que, com profunda tristeza e angustia,... duvido que surja. E, como a porção de fé que me foi destinada pela Divina Providência há muito foi aplicada em coisa mais séria e mais certa,... prefiro, por enquanto, contentar-me em reflectir sobre uma máxima de Marco Aurélio:
«Conserva-te simples, bom, íntegro, sério, amigo da Justiça, vigilante, amigável mas decidido no cumprimento dos teus deveres.
Venera os deuses e vem em ajuda dos homens, imita o teu predecessor na sua acção conforme à razão, o seu carácter constante, a serenidade do seu rosto, a sua doçura, o seu desdém pela vã glória, o seu ardor pelo trabalho, o seu desdém pela calúnia, contenta-te com pouco para ti e sê magnânimo com os outros».
* titamau@netcabo.pt
Professor da Universidade Lusófona
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